Amizade
Um dia eu e minha amiga encontramos sementes
Um dia eu e minha amiga plantamos as sementes
Todo dia eu e minha amiga cuidávamos do solo
Nasceu uma flor delicada
Uma flor que precisava de cuidados
Uma flor complicada
Um dia minha amiga arrancou uma pétala
Um dia eu me furei com os espinhos
Um dia minha amiga cuidou com carinho
Um dia eu quebrei o caule
Nós desistimos da flor
Tão difícil de cuidar
O estranho é que
eu e ela nunca voltamos
a nos encontrar
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sexta-feira, 24 de abril de 2020
Amizade
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quinta-feira, 13 de setembro de 2018
Fachada
Hoje um grito sufocado rasgou minha garganta
Na noite escura uma chuva quente inundou meu quarto
Um boneco quebrado foi o que encontrei dentro do espelho
quando a chuva me arrastou
E ainda que eu estivesse parado podia sentir meu corpo caindo
Caindo
Caindo
Caindo
Meus lábios foram costurados num sorriso eterno
No parque de diversões que vou todo dia
eu sou o palhaço
O palhaço que cai
Na noite escura uma chuva quente inundou meu quarto
Um boneco quebrado foi o que encontrei dentro do espelho
quando a chuva me arrastou
E ainda que eu estivesse parado podia sentir meu corpo caindo
Caindo
Caindo
Caindo
Meus lábios foram costurados num sorriso eterno
No parque de diversões que vou todo dia
eu sou o palhaço
O palhaço que cai
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Carta no mar
Carta no mar
O céu vermelho é a carta de uma ruína
a ruína vive em mim
como as estrelas vivem no céu
O vermelho é a cor do líquido que corre em meus pulsos
cheios de desespero
Como aquele sorriso amarelo na grama
com os lábios esticados demasiado e
a gengiva tão visível quanto as nuvens
Uma minúscula esfera azulada
um nada comparado a escuridão em que fica
é onde vivo
tão pequeno, com sobreviventes menores ainda
Aqui todos usam luvas, pois creem que as rosas têm espinhos
todos riem para esconder as lágrimas
Estamos presos em rotinas sem nem um propósito
Minha irmã de dezessete anos trabalha até seus olhos de fecharem sem o seu consentimento
minha amiga de quinze anos mergulhará em todas as palavras que vê enquanto elas existirem
minha prima de dez anos enfia a língua na garganta de homens vinte anos mais velhos
e o que me dizem?
eu os ouço dizer que a minha prima é a mais esperta
Aqui é assim
Nessa pequena bola azul e branca onde eu vivo é assim
O único sorriso que vejo pertence a bola quente de fogo assustadoramente grande em cima da minha cabeça
O único sussurro de felicidade que ouço é do vento forte perto da areia
O único grito de alegria que ouço é das ondas irritadiças com as garrafas de plástico jogadas em suas espumas
ah, o mar!, tão belo!
minhas lágrimas salgadas são doces ao seu encontro
os peixes pequenos que correm em desespero quando me veem parecem tão frágeis e tão fortes...
os lamentos e choros parecem tão insignificantes perto de tanta água
A água, a vida
As sereias me chamam ao seu encontro
dizem que Atlântida não é longe pra quem pertence ao oceano
Eu quero ir
a esse lugar desconhecido
Quero me desprender a dor da terra
e viver livre na água
Uma criança chorou na minha frente
não era birra:
não chorava por fome nem por saudade
chorava como um adulto
chorava por motivos que faziam meus olhos encharcarem
chorava porque as pessoas preferiam usar luvas para proteger-se das rosas
a segurá-las com suas próprias mãos
De fato, o mar me sussurrou algo
as sereias me chamaram outra vez
e eu, fraca, me doei
Atirei-me contra as ondulações geladas
sentindo meus pulmões afundarem com o peso
meus olhos se encharcaram
porém, dessa vez,
se encheram da água fria e salgada
do belo mar que me gritava de alegria
O céu vermelho é a carta de uma ruína
a ruína vive em mim
como as estrelas vivem no céu
O vermelho é a cor do líquido que corre em meus pulsos
cheios de desespero
Como aquele sorriso amarelo na grama
com os lábios esticados demasiado e
a gengiva tão visível quanto as nuvens
Uma minúscula esfera azulada
um nada comparado a escuridão em que fica
é onde vivo
tão pequeno, com sobreviventes menores ainda
Aqui todos usam luvas, pois creem que as rosas têm espinhos
todos riem para esconder as lágrimas
Estamos presos em rotinas sem nem um propósito
Minha irmã de dezessete anos trabalha até seus olhos de fecharem sem o seu consentimento
minha amiga de quinze anos mergulhará em todas as palavras que vê enquanto elas existirem
minha prima de dez anos enfia a língua na garganta de homens vinte anos mais velhos
e o que me dizem?
eu os ouço dizer que a minha prima é a mais esperta
Aqui é assim
Nessa pequena bola azul e branca onde eu vivo é assim
O único sorriso que vejo pertence a bola quente de fogo assustadoramente grande em cima da minha cabeça
O único sussurro de felicidade que ouço é do vento forte perto da areia
O único grito de alegria que ouço é das ondas irritadiças com as garrafas de plástico jogadas em suas espumas
ah, o mar!, tão belo!
minhas lágrimas salgadas são doces ao seu encontro
os peixes pequenos que correm em desespero quando me veem parecem tão frágeis e tão fortes...
os lamentos e choros parecem tão insignificantes perto de tanta água
A água, a vida
As sereias me chamam ao seu encontro
dizem que Atlântida não é longe pra quem pertence ao oceano
Eu quero ir
a esse lugar desconhecido
Quero me desprender a dor da terra
e viver livre na água
Uma criança chorou na minha frente
não era birra:
não chorava por fome nem por saudade
chorava como um adulto
chorava por motivos que faziam meus olhos encharcarem
chorava porque as pessoas preferiam usar luvas para proteger-se das rosas
a segurá-las com suas próprias mãos
De fato, o mar me sussurrou algo
as sereias me chamaram outra vez
e eu, fraca, me doei
Atirei-me contra as ondulações geladas
sentindo meus pulmões afundarem com o peso
meus olhos se encharcaram
porém, dessa vez,
se encheram da água fria e salgada
do belo mar que me gritava de alegria
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